No ‘Mano a Mano’, Mano Brown nos dá a oportunidade de conhecer de perto os anseios do povo da periferia
- São Paulo (SP)
- Eduardo Suplicy
Livros nos proporcionam conhecimento, emoção e alguns deles mexem especialmente com a nossa memória afetiva. Durante as férias, li Mano a Mano, obra que reúne vinte entrevistas marcantes do podcast homônimo, comandado por Mano Brown e Semayat Oliveira. Que leitura extraordinária e quantas boas lembranças do dia em que eu “descobri” a força dos Racionais MC’s.
Foi em outubro de 1994, durante um comício no Grajaú, na zona sul da cidade de São Paulo, que percebi que algo estava mudando. Já no caminho, vi cartazes que anunciavam: “Hoje teremos Os Racionais no comício”.
Notei ao chegar que, diferentemente de outros eventos, esse já contava com cerca de 10 mil pessoas! Logo que fiz o meu discurso, havendo outros oradores para falar, o povo começou a pedir: “Queremos ouvir Os Racionais!”.
Naquele dia, ao ver a multidão cantar cada verso com fervor, compreendi que, para entender as dores e as aspirações de lugares como a Favela da Godói, era indispensável conhecer o rap. Desde então, passei a frequentar seus shows e a acompanhar de perto essa expressão tão legítima da nossa cultura.
Essa jornada de aprendizado encontra hoje os espaços privilegiados do podcast e do livro. No Mano a Mano, Mano Brown nos dá a oportunidade de conhecer de perto os anseios do povo da periferia, bem como da sua própria história. A escolha dos entrevistados nos proporciona diálogos com pessoas que nos ajudam a refletir sobre como podemos evoluir.
Em sua entrevista, o presidente Lula destaca a seriedade do movimento hip-hop: “Nunca ouvi alguém do hip-hop falar que eu deveria fazer tal coisa para o movimento, mas todas as vezes em que as causas mais nobres estiveram em jogo vocês estavam presentes. É uma gratidão eterna que o povo brasileiro precisa ter com vocês”.
Já o bate-papo com o médico oncologista e escritor Dr. Drauzio Varella, nos ajuda a entender como o sistema prisional e a saúde se entrelaçam no Brasil em um diagnóstico cruel. O médico lembra como tudo começou: “Eu estava fazendo um vídeo sobre Aids e quis mostrar que, nas prisões, o vírus estava se disseminando. Fui entrevistar pessoas, mostrar a enfermaria, que era um pavor, os clientes todos magérrimos, morrendo. E, quando entrei na cadeia, me bateu um interesse muito forte”.
Importante ressaltar a atualidade do tema. Quando o Dr. Drauzio chegou ao extinto Presídio do Carandiru, em São Paulo, o Brasil contava com cerca de 90 mil presos. Em 30 anos, esse número já ultrapassou os 830 mil, segundo dados de 2023/2024, com aumento expressivo da população carcerária feminina — devido ao tráfico de drogas — e da população negra.
Ao mesmo tempo, o livro também celebra a força de mulheres extraordinárias. Minha querida colega na Alesp [Assembleia Legislativa de São Paulo], a deputada Leci Brandão, símbolo da resistência preta e LGBT+, reforça que “Cultura é Vida”. Já a saudosa jornalista Glória Maria nos emociona ao contar como sua família a educou para ser uma mulher livre, muito antes da luta por empoderamento. Esse legado de liderança feminina foi, inclusive, exaltado pela ativista Angela Davis, que vê no Brasil — e na memória da vereadora Marielle Franco — um exemplo para o mundo.
A cada entrevista, como nas reflexões de Wagner Moura sobre o trabalho escravo ou na sensibilidade do casal de atores Taís Araújo e Lázaro Ramos sobre afeto, Brown humaniza a história do Brasil. Ele não apenas pergunta sobre a origem de seus convidados: ele nos convida a pensar em iniciativas que transformem a qualidade de vida do nosso povo. A partir dessas vozes, aprendemos que o amor e a cultura são as ferramentas mais potentes para curar e reconstruir nossa nação.
*Eduardo Suplicy é deputado estadual (PT-SP). Foi senador, vereador e secretário Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo na gestão Fernando Haddad.
Publicado no site do BRASIL DE FATO no dia 3/2/2026
https://www.brasildefato.com.br/2026/02/03/vozes-da-resistencia-o-que-aprendi-entre-o-grajau-e-o-mano-a-mano/
